Vou produzir uma obra
a mais magnífica obra
que ninguém vai entender
Fundirei no mais puro bronze
um grande, altivo Belerofonte
mas ninguém vai entender
Pintarei magníficas telas
cantarei as canções mais belas
apesar de ninguém entender
Tentarei toda sorte de gênero
do baixo ao alto, além do ameno
pena que ninguém vai entender
Cansado, com fome, aflito
lançarei mão de um único grito
"Alguém vai entender?"
No final, acabará o problema
eu farei meu próprio poema
para ninguém mais entender.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
Câmbio
fiquei pensando hoje o dia todo o quanto eu não consigo me comunicar com a maioria das pessoas
e falar o que eu sinto e penso com clareza
e ser entendido
sei lá
me senti um estrangeiro
perdido contra a turba
as palavras me magoam
porque estão reverberando na minnha cabeça
e me trazem a tona tudo que eu já cometi de erro
logo eu que quero cometê-los poucosquarta-feira, 23 de janeiro de 2013
O Ronco dos Pássaros
Eram muitos tiros sobre nossas
cabeças, assim como muitos aviões. Os tiros intermináveis, os avios
esporádicos... Todo dia era fome, sede e sono, todo dia a mesma fome, a mesma
sede e o mesmo sono, cada dia piores, dizíamos que era a mesma mais para nos reconfortarmos
do que por serem mesmo a mesma fome, o mesmo sono, a mesma sede; a verdade é
que não eram, cada dia eram piores, tanto a fome, quanto a sede, quanto o sono,
nenhum dos três nunca cessavam, só aumentavam e aumentavam e aumentavam e os
dias eram mais longos e as noites de ronda, mais curtas (quando estávamos na ronda, eram mais longas). As noites
tornavam-se mais frias com o passar do tempo, O inverno ta chegando, dizia o
Marco, que fazia a contagem dos dias para nós, porque era o único que tinha
vindo com caderno e ele havia numerado, ah, o Marco era esperto mesmo, desde a
época de escola, a gente estudou junto, o Marco havia numerado as páginas do
caderninho que ele trouxe, no começo todo mundo achou Que babaquice, esse nerd
na guerra só vai atrapalhar o Pelotão; mas o Marco não, podia ser nerd, mas ele
sabia pensar direito, e agora já todo mundo agradecia que ele tinha trazido o
(Bendito caderninho, hein, Marco!) bendito caderninho dele, que meio que deixava
todo mundo são, era uma espécie de ligação nossa com a realidade, que tinha
ficado lá em casa; aquela realidade do dia a dia, de chegar em casa do trabalho
e encontrar a mãe e a irmã, essa realidade de verdade, das coisas que
acontecem; não da guerra, essa não acontece de verdade verdadeira, acontece só
em filme de Hollywood, com ator famoso, ganhador do Oscar; mas a nossa
realidade virou aquela de filme, em que tem mocinho e o sargento malvado e as
latrinas pra limpar (mas isso só no treinamento, ainda bem) e os pentes de bala
e Toma aqui esse fuzil, seu verme! E toca a gente com lama até o joelho
atravessando a floresta, que agora já tava frio, de acordo com o Marco já é 25
de maio já, meu aniversário mesmo passou e eu nem vi, porque ainda não tinha juntado
o Pelotão – o Marco era da XXVII Cia. e eu era da XXVIII, sou médico de formação,
né, e essa Cia. tava sem – e sem o Marco nem o Capitão Augusto sabia da data e
isso porque ele tinha um relógio todo incrementado, era de família rica o
Capitão, isso dava pra ver, era daqueles que o pai tinha sido Coronel e o avô
também, porque ele mesmo não tinha nada que prestava pra guerra que a gente
tava enfrentando, talvez se fosse uma guerra da carteira dele contra a roupa
cara da loja ele talvez ganhasse, mas nem assim, porque era no fundo um
filhinho de papai, caiu nessa porque era bonito e acabou se lascando, até pior
que eu, porque eu pelo menos não tinha que mandar em ninguém, meu negócio era
só curar quem tivesse com um tiro na coxa ou algo do tipo (eu digo curar, mas
na verdade era embebedar o homem de cachaça barata mesmo e torcer pra ele não
acordar enquanto eu tivesse arrancando a bala, mais do que isso não era da
minha alçada não). E eu acho que até o Capitão percebia essa minha vantagem
sobre ele, porque ficava me olhando com uma cara estranha de vez em quando, se
eu dava uma ordem prum soldado me pegar uma gaze, me olhava; se era uma
recomendação pro sargento que foi baleado, me olhava; acho mesmo é que o
Capitão gostava de olhar pras pessoas porque, a bem da verdade, só me olhava
estranho, o riquinho (como a gente chamava ele, era de Coronel Riquinho, porque
a gente dizia que ele era tão afetado que devia ganhar soldo de Coronel pra
manter toda aquela pose).
E já era pra lá de meia-noite, Ou
seja, já é dia vinte e sete, disse o Marco, quando a gente chegou naquela
cidade, que puxa vida!, que cidade estranha, pois que estava no meio da linha
de combate e não estava a) destruída nem b) povoada pelo inimigo. Era a coisa
mais estranha do mundo aquela loucura de cidade que não tinha ninguém mas tinha
cara de que tinha tido, mas não tinha cara de que tinha sido invadida, mas
tinha cara de que Se fosse pra ser invadida, já tinha sido, disse o Capitão num
arroubo de liderança, porque normalmente ele nem falava nada, nem coisas óbvias
como essa. E a cidade ‘tava lá, meio distante? da gente, sei lá, porque era
como se nunca tivesse sido tocada, mas como que uma cidade nunca tocada teria
sido construída, né?, Isso pra mim parece é sonho, disse o Do Carmo com aquele
sotaque cearense e todo mundo deu risada e eu vi nos olhos de todo mundo – e
teria visto no meu porque estava sem espelho, mas se tivesse com um, eu tinha
visto também – um olhar de quem acabava de ver o Mágico de Oz e sorrir
ternamente com os sapatinhos de rubi no Kansas, um olhar de quem descobre uma
realidade meio que posta no lugar errado, posta fora de si, como quando a gente
vê alguém muito calmo explodir de raiva, ou alguém muito bravo sendo carinhoso
com a namorada; sei que no fundo todo mundo tinha visto um sonho e acreditado
nele e de repente não acreditava mais, mas tava com vergonha de ter acreditado,
que nem aquela última criança da sala que descobre que Papai Noel não existe;
tudo isso nos primeiros milésimos, milionésimos de segundo em que todos riram da
frase do Do Carmo, mas aí todo mundo olhou de novo e viu que o sonho não tinha
desaparecido e que ‘tava lá, não nossa frente a cidade que, pela cara, devia
ser uma cidade pequena, mas também não tão pequena assim, porque a gente não
conseguia ver o final dela de cima do morro, era ali como fosse uma serra, e a
cidade ficava no meio do vale, mas escorregava pra dentro de um outro vale,
parecendo até um pouco que ela corria junto com o rio que ficava no meio dela e
que, de onde a gente ‘tava, dava pra ver que dava apoio, nas margens, pra
várias pontezinhas, uma a cada duzentos, trezentos metros, não dava pra ter
certeza, a gente ‘tava meio longinho mesmo, acho que uns três, quatro
quilômetros, coisa assim, o Marco fica querendo dar uma de espertão, fica
falando que São três vírgula setenta e cinco quilômetros, Capitão, mas a gente
fala que deve ser uns três e fica por isso mesmo, só quem gosta dessas frescuras
do Marco é o afetado do Capitão, Coronel Riquinho, haha, mas sei que é isso
mesmo, no nosso passo a gente vai levar uma hora, por aí, que a gente ‘tá num
passo de marcha muito lento, porque tem dois aqui, o Vicente e o Fernandes,
‘tão baleados e andam mais devagar, isso é normal, faz parte desse nosso sonho
do absurdo, essa guerra, essa guernica; já dizia um amigo meu que Se você vai
ao Teatro do Absurdo, só pode esperar ver o Absurdo, o que nunca fora tanta
verdade pra mim quanto é hoje. Hoje, dia 27/05, estou com o 43º Pelotão de
Infantaria, vinte e sete bravos homens, uns feridos, outros doentes, alguns
somente cansados, todos com medo da cidade que se estende aos nossos pés,
misteriosa e silenciosa. Misteriosa e silenciosa até demais.
Adentramos o portal da cidade,
Bienvenidos a la ciudad de Sta. Rita de los Pájaros, dizia a placa de entrada,
É Santa Rita dos Pássaros, só que em espanhol, nos disse o Capitão, muito
desnecessariamente, porque nem o Oliveira, que só tinha até a quarta série, não
saberia que essa era a tradução do que estava escrito na placa de azulejos
brancos na entrada da cidade; era bom que pelo menos sabíamos onde estávamos,
era Sta. Rita de los Pájaros, se alguém perguntasse Onde está o Pelotão,
Capitão? (isso se o rádio voltasse a funcionar) pelo menos o coitado do Coronel
Riquinho podia dizer com certeza ao superior dele Estamos, com absoluta
certeza, em Sta. Rita de los Pájaros, Major!, o que lhe daria pelo menos um
pouco mais de credibilidade junto ao Major, que julgava (muito corretamente)
que o Capitão não passava de um paspalho, mas o que haveria de se fazer?, ele era
Capitão, deveria comandar um Pelotão, naturalmente. Naturalmente, também, não
possuía culhão para tal, mas isso pouco importava, teria de servir, pois só
havia ele mesmo; do Quartel-General, tenho certeza, estariam falando agora da
pena que foi perder aquele Pelotão no meio da selva, estava agora incomunicável,
Mas é claro, com aquele comandante palerma, lógico que se perderiam, diria o
Coronel ao saber da notícia; mas isso se eles tivessem mesmo se perdido e nós
não nos perdemos, sei eu bem, porque estamos, obviamente, em Sta. Rita de los
Pájaros, que bendita santa era essa, eu não sabia dizer, mas que os mais
católicos já estavam rezando em seu nome, ah, isso já estavam mesmo, certos
eles, que rezam por todos nós, melhor que o Santana, que fica ali, quieto no
canto, metido a ateu, que sei lá o quê, é comunista, coisa assim e é por isso
que nem acredita em Deus e nem reza pra santa nenhuma, quanto mais essa que
ninguém conhece – mas a gente mais simples reza mesmo assim, vai que dá certo,
né?!.
O negócio é que lá estávamos, na
bendita Sta. Rita, padroeira dos soldados perdidos (se não fosse, acabava de
virar), e fomos logo entrando na cidade, chamando por moradores, mas como saber se haveria
inimigos nos esconderijos, nos becos da misteriosa santa, naquelas ruelas todas
que mais pareciam tiradas de um cartum do ligeirinho, parecia que estávamos no
México, mas num México no meio da mata fechada, sei que havia aquelas lojinhas
com toldos de lona amarelada, uns vasos de barro ali do outro lado, um poço no
meio da praça, bem aquele cenariozinho que a gente vê em filme mesmo, só
faltava aparecer o caubói americano, o Charles Bronson, alguém assim, pra ver
se ia rolar um duelo em praça pública, mas não, não veio Charles nenhum, nem
bola de feno passando atrás do cenário não tinha nessa cidade esquisita. Oxente
que isso aqui tá mais é parecendo minha cidade quando fomo pro Sul, falou bem
alto o Do Carmo, que fez todo mundo rir alto, todo mundo querendo mesmo uma
desculpa pra poder não ficar tenso e o Do Carmo arranjou bem essa, fez até o
Santana rir, mesmo ele que nunca achava nada bacana nem engraçado, mas nessa
ele não aguentou e riu mesmo. Nessa hora foi que eu dei por mim uma coisa
estranha, que parece que ninguém tinha reparado, foi que os barulhos de tiro,
antes tão frequentes, tinham sumido, a floresta escondeu os tiros da gente,
escondeu os tiros e os aviões, nenhum mais passava na nossa cabeça, fazendo a
gente se jogar no primeiro buraco que visse, que nem tatu apavorado quando
sente cheiro de onça; mas nem isso não tinha mais, barulho de tiro, tanque,
avião, nada disso a gente tava ouvindo, foi aí que eu chamei o Capitão no canto
e falei Capitão, o senhor deve ter reparado que não tá mais passando avião e
nem tem mais barulho de tiro, o que o senhor acha que tá acontecendo?, o que eu
acho que foi informação demais pro coitado do Coronel Riquinho, que deu uma
bela duma travada e ficou bem uns cinquenta segundos pensando no que fazer em
relação a isso e depois dos cinquenta segundos ele me disse Tenente, você sabe
que os homens tão precisando é de apoio, mas não vamos falar nada, que não é
bom a gente ficar criando esperança, quem for percebendo vai percebendo e pronto,
tá., e eu Sim, senhor, Capitão e continuamos a nossa procura por algum sinal de
vida naquela cidade meio estranha que a gente tinha chegado.
Umas duas horas já tinham passado
quando a gente chegou no que parecia um hotel, uma pousada, coisa to tipo,
paramos e entramos e estava tudo como um hotel normal em dia de serviço, só que
sem ninguém, sem viv’alma que pudesse dar informação ou pelo menos alugar um
quarto pra eles, que eles estavam mortos de fome e de cansaço. Vasculhando o
hotel – Hotel Dornelles, estava escrito atrás da bancada da recepção, entalhado
na madeira, junto daqueles nichos onde ficam as chaves quando os hóspedes não
estão, os nichos cheios de chaves, porque, visivelmente, não havia nenhum hóspede
naquele hotel e em nenhum outro da cidade – certificaram-se de que não havia
ninguém e não havia mesmo ninguém no Hotel Dornelles.
Tendo analisado cada pedaço de
Hotel, os homens ficaram bem mais tranquilos, mesmo eu fiquei mais tranquilo,
mesmo eu que sou desconfiado até de abraço de mãe, eu fiquei mais calmo com a
solidão do Hotel Dornelles, só quem não ficou foi o Santana, voltou à mesma
carranca de antes da piada do Do Carmo, aquele Santana era um esquisito mesmo e
não fosse ser tão na dele e tão obediente o Capitão teria até medo dele, eu sei
disso e sei bem, porque até eu teria medo do Santana – sujeitinho mais
estranho, viu?!, ninguém nem sabia de onde tinha vindo; porque no começo a
gente acaba apelidando o sujeito é pelo Estado dele, o Do Carmo era o Cearense,
o Vicente era o Carioca, eu mesmo os meninos chamavam de Tenente Paulista (eu
nem ligava, deixava eles chamarem , que assim ficava todo mundo mais unido).
Mas o Santana não, ninguém nem falava com ele, quanto mais saber de onde ele
era – e, no fundo, todo mundo tinha era uma certa expectativa... Sei é que na
solidão do Hotel Dornelles cada dois escolheram um quarto pra dividir – fiquei
com o Coronel Riquinho, porque só tinha nós dois de oficial, e sabe como ele é,
né, basta uma chance que ele ‘tá reclamando sua patente pra cá e pra lá –
porque assim um protegia o outro se acontecesse alguma coisa e dividimos (eu
dividi, o Capitão ficou do meu lado fazendo, tentando fazer cara de mau) todos
nos quartos e cada quarto ia fazer só um pouquinho de ronda, né, dois quartos
por vez, um aqui em cima, outro lá no térreo, assim ficava certinho; ficaram no
fim catorze quartos mesmo, porque o Santana insistiu de dormir sozinho, mesmo
com o Capitão mandando fazer um trio, mas ele sabia que o Capitão tinha medo
dele, então foi e pegou o último quarto sozinho mesmo e falou que ia fazer a
ronda sozinho também, que não tinha problema, ele dava conta, e Bom, eu é que
não questiono o hômi, disse o Do Carmo assim que o Santana foi pro quarto dele
e todo mundo caiu na gargalhada de novo.
Todo mundo já estava colocado, muito
bem instalado no próprio quarto e o Vicente e o Fernandes a gente pôs pra ficar
nas janelas do último andar, meio de guarda, porque não podiam ajudar de outro
jeito, então ficaram de sentinelas nos quartos da frente do hotel, a gente até
arranjou uns antibióticos lá e eu dei pra eles, pra ver se pelo menos baixava a
febre dos dois; o Oliveira foi pra cozinha e Deixe comigo que eu faço a comida,
porque lá no Paraná eu trabalhava em restaurante, ele disse, então tudo bem,
Você vai pra cozinha, Oliveira, onde ele achou um monte de comida na despensa,
que ia dar bem pra gente ficar uma semana ou mais um pouco e Quando acabar a
gente vai e pega nas casas, não tem ninguém mesmo!, o que foi uma notícia boa
pra caramba, deu uma boa animada no pessoal, que já ‘tava cansado de ter que
ficar comendo banana na floresta e economizando ração-de-campanha – ração essa
que o Oliveira repôs a de todo mundo – e bebendo água barrenta de orquídea na
selva.
As rondas iam noite afora, sempre
dois homens no térreo, dois no andar de cima, o dos quartos, eu e o Capitão
fazíamos nas primeiras horas da noite, porque daí nosso sono era contínuo, Regalia
de oficial, sabe como é, né, Tenente?, dizia pra mim o Capitão, durante a nossa
ronda e eu nem me importava, era pouco tempo pra cada um; desde que todos
tivessem o mesmo horário, estranho ainda era o Santana, ia sozinho pra ronda e
ainda ficava lá no térreo, mas quem ia ter culhão pra desafiá-lo com aquele
jeito estranho de quem ‘tá meio escondendo alguma cosia, tramando algum
plano... Era um cara estranho mesmo, disso eu sei.
Passaram três dias e já era dia trinta
e um de maios, um frio de rachar, mas o aquecimento do Hotel Dornelles era o
bastante pra manter todos quentes e , não tinha jeito, tínhamos que usar o aquecedor
mesmo; devia estar lá pelos doze, treze graus, Treze mas com sensação térmica
de onze vírgula cinco, disse o Marco, Ah, Marco, quem quer saber dessas suas
bobagens?, replicou o Oliveira durante o almoço, que era servido na cozinha do
hotel mesmo, sem pompa e circunstância, porque, pudera, é só o que me faltava,
nós no meio da guerra (ainda estávamos em guerra?) e um pelotão de vinte e sete
marmanjos quererem ser servidos em louça cara e no salão de jantar, ah, não,
isso é que não tinha cabimento, até porque haja trabalho, levar toda aquela
comida, mais a louça, mais as toalhas, mais os guardanapos, tudo isso pro salão
e comer lá e toca aquela galera de novo, levar toda a louça suja, mais todas as
toalhas sujas, mais todos os restos de comida, tudo aquilo pra cozinha, todo o
trabalho pra lavar tudo e botar pra secar, Ah, não!, disse o Oliveira, Eu que
não vou fazer isso; todo mundo trata de comer na cozinha e cada um lava sua
louça, e foi dito-e-feito, todo mundo, até eu e o Capitão Augusto fizemos o que
o Cabo Oliveira pediu; pediu não, mandou!, mas é que o Oliveira era grande,
quem é que teria coragem de enfrentá-lo, essa situação ‘tava era meio que
acabando com a hierarquia do Pelotão, mas também, tanto fazia, porque a gente
tava mesmo acampado/escondido naquele Hotel Dornelles maluco, sem empregados
nem nada.
E foi aí então, no nosso oitavo dia,
que finalmente aconteceu alguma coisa de interessante lá: ouvimos um grito de
mulher. Mas não era um grito comum não, era grito de desespero, grito de quem
tá na guerra mesmo, coisa que a gente devia estar, porque ‘távamos lá pra isso,
mas parece que a guerra já tinha se esquecido da gente e a gente se esquecido
dela, e foi como se aquele grito desesperado de mulher tivesse despertado na
gente a lembrança de que tudo ainda estava acontecendo e que na verdade Sta.
Rita de los Pájaros não era o descanso merecido da guerra ao qual e pelo qual
tanto rezamos (menos o Santana, é claro), mas era sim um covil de inimigos que
matavam mulheres inocentes e destruíam suas famílias a troco de nada, porque
eram maus mesmo, lógico que eu não pensava assim, sou estudado, tenho curso
superior e tudo o mais, sei que guerra é jogo de interesses políticos, mas não
havia o que fazer agora, eu já estava dentro dela e motivado a matar tudo
quanto fosse inimigo no campo de batalha, até que a gente ouviu aquele grito de
mulher – reforço essa coisa de ser grito de mulher porque isso faz toda a diferença
na guerra, porque a gente nunca escuta mulher na guerra, uma vez ou outra de
enfermeira em algum acampamento de médicos, mas não é coisa comum, é coisa
rara, ainda mais agora, que a gente ‘tava tudo em silêncio, todo mundo tinha se
acostumado com a voz dos outros vinte e seis, ninguém esperava, mesmo num hotel
hospitaleiro como fora o Hotel Dornelles, ninguém esperava ouvir ali grito de
mulher, que fazia a gente lembrar de mãe e de namorada e tinha até o Sargento
Pereira, que tinha filha pequena, e nessas horas esses gritos tomam forma
concreta, viram gente de verdade, e aparecem na nossa frente como se fosse
nossa própria esposa ou noiva dando Oi, só que um OI gritado, que o grito desesperado
era de mulher, mas, fundamentalmente, era um grito – e aquele grito de mulher
fez todo mundo se sobressaltar de repente e todo mundo ‘tava num instante na
porta do hotel, lá no térreo,todo mundo de frente ao painel de madeira, aquele
em que estava escrito escrito Bienvenidos al Hotel Dornelles!, todo mundo a
postos no saguão, todos com os rifles em punho, esperando apenas a ordem do
Capitão, que ainda estava se aprontando, porque não tinha pego, mesmo com tanto
tempo no campo de batalha, o Capitão ainda não tinha pego o costume de estar
sempre pronto pra só pegar o rifle e partir para o combate, era um paspalho
mesmo, tenho certeza de que minha opinião batia bem com a do Coronel, lá no
Quartel-General, que devia pensar a mesma coisa do coitado do Capitão Augusto,
‘tava tão apavorado quanto qualquer um ali, mas isso não foi problema, porque
ele desceu rapidinho, também se preocupou com grito de mulher que era coisa que
há muito não se ouvia.
Fomos todos lá pra fora de supetão,
porque Lógico, temos uma dama a salvar, disse o Capitão, mas ninguém deu muita
bola, a gente só queria saber onde ‘tava a moça que tinha dado aquele grito
afinal; aí que sobreveio e sobrevoou a nossa surpresa: uma gralha, trepada no
alto de uma árvore soltou novamente o grito de mulher. E novamente. E
novamente. O que aconteceu na tropa foi um misto de alívio e aflição, bem
típico de quando uma situação estranha vem substituir uma situação ruim. A
gralha retornou para sua árvore, de lá foi a outra, daquela foi a uma terceira,
e continuou seu trajeto como se não tivesse visto o Pelotão de vinte e sete
homens armados sair de uma só vez pela porta de um hotel naquela simpática
cidadezinha misteriosa (eu pessoalmente tenho certeza de que a gralha nos viu e
de que ela estava apenas disfarçando quando percebeu o grandioso contingente
que a ameaçava com seus rifles apontados em todas as direções; tenho certeza
até de que aquele grito de mulher-gralha foi de propósito, foi para nos
confundir; até arrisco o palpite de que a gralha é treinada como espiã do
inimigo). Passado o susto primeiro e sendo ele substituído por aquela situação
de desconforto, fomos um a um entrando no Hotel Dornelles de novo, meio envergonhados
de terem (termos) feito tanto alvoroço em cima de uma gralha que estava apenas
cuidando de seus próprios negócios, Por que ela tinha feito esse grito?, eu me
perguntava, Por que tinha que ter sido bem um grito desses, um grito de mulher,
bem pronunciado e bem claro? Tenho certeza de que fez aquilo para nos
perturbar, para nos botar medo, para nos fazer questionar a bênção de Sta. Rita
de los Pájaros.
Na ronda, naquela noite, fingi que
não vi o Capitão se escorar na cadeira para tirar um cochilo e aproveitei para
entrar nos quartos e vigiar o sono dos meus colegas, de meus subordinados da
Cia., de meus compatriotas nessa terra estrangeira tão estranha, me foi de
grande surpresa o que vi, pois no quarto dividido por Vicente e Fernandes
(apelidado de enfermaria nos primeiros dias) estavam os dois deitados, ambos de
barriga para cima, suando como dois atletas em competição esportiva, mas eu
pensei comigo Mas é claro que deve ser a febre voltando, porque os dois não
tomaram antibióticos o suficiente, deve ter voltado a infecção na perna de um e
no abdome do outro, mas me surpreendi ainda mais quando os toquei e vi que ambos
tinham temperatura normal, não estavam com febre, e os dois também sussurravam,
cada um o nome de uma moça diferente, um clamava por Aurora e outro por
Fernanda, me soou bizarro, afinal delírios na guerra são normais, mas já
estávamos bem alimentados há oito dias, não havia fome, sede ou sono para que
eles delirassem assim, mas bem, qual o problema?, não é mesmo, que dois jovens
sonham com suas namoradas, ao que fui verificar os outros quartos e, como num
filme barato de terror, estavam exatamente iguais aos primeiros, agora o
cozinheiro gordo, Cabo Oliveira, ao lado do armeiro, Sargento Vinicius (um
“Fabiana, Fabiana...”, o outro “Lúcia, Lúcia...”), o que, agora sim, acabava de
me dar um susto dos diabos, porque uma coisa era os dois enfermos do Pelotão
num delírio de febre (mas não era febre), mas agora são quatro?, assim já é
demais! e fui ver os outros quartos, apenas para confirmar minha horrível e
fantasmagórica pressuposição de que todos estavam chamando pelos nomes de suas
namoradas, mulheres, noivas, prostitutas ou qual fosse a mulher de suas vidas.
Muito assustado, tentei acordar o soldado do primeiro quarto, bem o cearense
piadista, Do Carmo, que clamava vigorosamente por sua Juliana, e não ousou
despertar de seu sonho, assim como nenhum dos outros que eu tentei acordar, nem
mesmo o Capitão, que sussurrava um amável “Carlos, Carlos...” ao qual não dei
atenção e desci assustado as escadarias do Hotel Dornelles, para me encontrar
com o ronda, o misterioso ronda, postado displicentemente ao lado da bancada da
recepção, tentando dar polimento em sua placa de metal do fardamento, alheio a
minha aflição, mas aflito ele por não conseguir tirar a ferrugem que cobria
todo o “Sant” no início da tarjeta; tentei me explicar, mas ele calmamente me
interrompeu com as seguintes palavras Eles já nos encontraram, Tenente, só o
que podemos fazer agora é fugir e deixar os outros nos delírios; Mas como
podemos fugir, Santana, os homens estão delirando e. mas parei a frase assim
que ouvi ao longe o som das hélices, o indistinguível som das hélices dos
bombardeiros inimigos vindo claramente em nossa direção – Santana já havia
retirado as malas prontas para a recepção, de modo que eu pude pegar a minha e
nós dois saímos rapidamente do hotel, deixando para trás todo o 43º Pelotão de
Infantaria, e era óbvio que o certo seria esperar pelos homens, mas temos
instinto e eu e Santana corremos o máximo que pudemos pra dentro da floresta da
qual havíamos saído, mas ainda tivemos tempo de vê-los, de ver os bombardeiros
do inimigo, quase completamente camuflados contra o céu azul-escuro que
apontava na noite; pudemos ver os bombardeiros do inimigo despontando no céu
silencioso e até então pacífico e despejando majestosamente suas bombas sobre
tudo que a cidade podia ter sido, mesmo em outras épocas, pois era um esquadrão
aéreo inteiro, não eram poucos aviões e eles detonaram com a cidade e com o
Hotel Dornelles, como todo o 43º Pelotão dentro – menos dois integrantes – e
detonaram o poço no meio da praça e detonaram as ruas com aspecto de filme
mexicano e detonaram as lojas com toldos de lona e todos os vasos de barro e
detonaram todos os meus colegas e detonaram a pobre Santa Rita de los Pájaros.
Escreverei, agora que estou a salvo
no Quartel-General, o meu relatório da linha de combate. Quando me apresentei
ao Coronel e falei meu número de Pelotão, ele me perguntou Então mataram aquele
paspalho do Augusto, foi?
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Mens sana aut corpore sano
Eu fora, até então, praticamente
autossuficiente dentro do meu pensamento. Não havia problema de matemática,
dúvida de português, diálogo filosófico, discurso retórico ou abstração
conceitual que escapasse à minha capacidade intelectual avantajada, ao meu
raciocínio. Toda e qualquer mensagem era decifrada, toda equação era
solucionada, nada era páreo para o meu cérebro.
Nos tempos de escola, já era
patente. No primário, enquanto meus colegas pintavam, eu escrevia; enquanto
escreviam, eu já calculava; enquanto balbuciavam poemas, eu lia sermões do
Padre Vieira; enquanto aprendiam o Português, eu já estudava o Latim. No
ginasial não foi diferente, e muito menos no Colégio e nas faculdades que fiz.
Depois de Direito, formei-me em Medicina; depois, Farmácia; depois, Letras,
Engenharia, Comércio... Durante o exercício de cada profissão, eu cursava a
Faculdade seguinte. Já estou com meus quarenta anos e curso Botânica.
Havia um porém à minha glória.
Talvez toda a minha busca por sucesso viesse do meu insucesso óbvio e gritante.
Eu não apenas fora zombado durante os meus anos escolares, como também na
Faculdade. Da mesma forma, minha família rechaçava a minha pessoa e – vejam só!
– até minha progenitura. Quando da morte precoce de meu pai, meu pequeno irmão
Fausto assumiu a cabeceira da mesa, o atrevido! Receio, contudo, que não o fez
por sua vontade, posto que me estima e me respeita muito, mas por pressão de
mamãe e dos tios. “Como pode o Ludovico assumir a família, oras, se não assume
o controle sobre si mesmo?” era o que dizia meu tio Margarido. Não à toa foi
Medicina minha segunda Faculdade (Direito a primeira, pois pelo menos os
negócios de papai eu assumi; Fausto nem formado era à época do velório!).
O que conto agora não passou-se há
mais de cinco ou seis meses, mas precisei de algum tempo para digerir o acontecido
e regurgitá-lo em palavras. Estava trabalhando na Câmara do Comércio, como
todos os dias, quando nos foi, a mim e a meus companheiros de repartição,
anunciado o ingresso do novo escrivão, Marco Antonio. À primeira vista,
diferentemente do anunciado, pareceu-me um paspalho, com sua casaca nova e seu
chapéu velho e fora de moda, cabelos castanho-alourados incrivelmente arrumados
mesmo depois de tirado o chapéu, os olhos claros, o bigode bem aparado, os
ombros largos e fortes: um Apolozinho, jogado na Câmara do Comércio.
Fiz-me de importante, porque é
justamente o que alguém com meu cérebro deve ser considerado: importante.
Importantemente não me levantei e esperei o visivelmente estúpido novato vir à
minha mesa cumprimentar-me. E veio, o parvo. Convidou-me, depois de alguns
dias, para uma ceia em sua casa, com sua mulher, e pediu-me que levasse a minha
senhora, que seríamos muito bem recebidos.
- Infelizmente, meu caro, declino
metade do convite: não possuo uma senhora para chamar de minha -, disse-lhe.
- Ora, mas então venha o Senhor –
julgou-me tolamente ser o chefe da repartição (algo que, de fato, eu deveria
ser) -, pois de qualquer forma será bem vindo.
Fui. Chegando lá, ao adentrar sua
bela casa, conduziu-me à sala de estar, oferecendo um magistral cabideiro de
chão para eu colocar minha sobrecasaca francesa e meu chapéu, este sim na moda.
- Desculpe-nos a simplicidade,
Mestre Ludovico, mas penduramos as bengalas também nesse cabide -, disse-me o
anfitrião.
Para explicar minha recusa, voltaremos
um pouco. Nos meus catorze anos, sentia-me um minotauro horrendo, hemicindido
pela vida: minha mente, humana; meu corpo, animal. Aos dez, ganhei minha
primeira bengala, que até então fora de meu avô. Toda a família esperava que,
de onde estivesse o patriarca – Céu ou Inferno -, não visse tal objeto em
minhas mãos; o velho certamente morreria mais uma vez, só que de desgosto.
Quebrou-se aos meus doze, com o peso que sempre carregava sobre si
espatifando-se no meio do pátio da escola, para alegria dos ginasiais presentes
e meu desespero. Deram-me outra, minha por direito, com iniciais e tudo o mais.
Nos catorze, como já disse, sentia-me dúbio, cindido; sentia-me a falha do
Enigma da Esfinge: estava em três pernas no auge da minha mocidade. Sou, fui e
serei como nasci: coxo, manco, claudicante, satírico, hefestuoso. Tenho uma
perna mais curta do que a outra em meio palmo.
Marco tornou-se um amigo próximo.
Nas semanas seguintes, incentivou-me a sair a dar largos passeios depois do
expediente. Minha vergonha era como um anúncio grande de jornal, estampada em
minhas faces, perto daquele exemplo grego de beleza. Podia-se imaginar um deus
acompanhado de seu servo sátiro, passeando pelas calçadas do centro até altas
horas da noite. Não possuo e talvez ninguém o possua, mas quem possuísse um
óculos que visse inteligência no lugar de beleza teria invertido o papel do meu
amigo com o meu nessa pictorização clássica.
Nossas caminhadas tornaram-se, com o
tempo, mais fáceis. Marco então passou a me convidar para vê-lo em suas
competições esportivas, o que de início trouxe-me uma repulsa imensa e
violenta, como a de um homem que encara o sofrimento humano no Tártaro. Minhas
lembranças da juventude brotaram como almas penadas a me assombrarem assim que
meu amigo proferiu o convite. Vituperavam contra mim e, sarcásticos, faziam
cantos elogiosos a deuses mancos, a heróis coxos, a Tibério Cláudio, imperador
romano. Comprimiam-se ao meu redor envolvendo-me com suas garras que deixavam
escorrer veneno puro. Uma delas sussurrou meu nome: Fracasso. Foi a gota
d’água.
- Sim, vou assisti-lo – e as bruxas
evaporaram com a mesma rapidez com que surgiram.
As lutas contra nós mesmos são as
mais difíceis. Passei a frequentar, inicialmente com dor, o Ginásio no qual
Marco treinava para suas competições de nado e montaria. O sucesso de Marco
parecia corroer minhas entranhas; eu não podia aguentar a glória aquiliana de
meu amigo. Fiquei uma semana sem falar com ele. Voltamos a nos falar com o
horripilante diálogo:
- Mestre Ludovico, eu competirei na
semana que vem, num torneio de montaria. Gostaria que o senhor fosse meu
treinador até lá. Vi sua cara de insatisfação durante meu treino e apenas um
intelecto como o de vossa senhoria pode me ajudar nessa competição.
Fomos após o trabalho para o
estábulo do Ginásio. Marco explicou-me o que teria que fazer para vencer a
competição e rapidamente calculei qual trajeto de obstáculos seria mais rápido.
Treinamos (treinou) intensamente até a interrupção por um funcionário do clube.
- Senhor Marco, Senhor Marco, está
parado aí na frente um cabriolé com um condutor esbaforido que alega que sua
esposa está em trabalho de parto e roga por sua presença!
Marco nem teve tempo de despedir-se
de mim ou retirar a roupa de cavaleiro. Fiquei sozinho no campo de treino da
montaria, sob o sol crepuscular. Vi o cavalo amarrado desleixadamente à cerca e
aí então vi outra coisa. Vi surgirem do encontro da terra com os céus um embate
digno do Fim dos Tempos. De um lado lutavam meu avô e meu pai, armados de
bengalas e com seus antigos trajes militares e suas antigas medalhas do tempo
da guerra; do outro Marco reapareceu montado num cavalo, a flamejante bengala
de meu avô novamente inteira apontada contra meus antepassados. Marco
convidou-me a unir-me a ele na batalha, e eu não pensei duas vezes antes de
tomar o pobre cavalo atrelado à cerca, empunhar-me minha bengala como Marco
fazia e partir para o combate.
Recobrei a consciência quando o
cavalo parou, exausto, na lateral da arena, para beber água. O relógio da torre
da capela do Ginásio bateu oito vezes; já fazia duas horas que meu amigo saíra
para atender a suas obrigações paternas. Não havia sinal dele, nem de meu avô,
nem de meu pai, nem de batalha nenhuma. Meu corpo funcionava, então? Eu andara
a cavalo por duas horas, sem cair, errar, machucar o cavalo ou rirem de mim.
Minha felicidade foi ímpar. Sentia-me, enfim, pleno: uma mente brilhante num
corpo funcional. Nos meus catorze anos, meu desejo era ser apenas mente,
aniquilar meu corpo; mas hoje não! Estava dono de mim. Principalmente, e
finalmente, sentia o peso de meus ascendentes esvaindo-se, deixando minhas
costas livres. Até meu andar tornou-se menos abrupto, menos manco depois desse
dia.
Escrevo hoje, depois de tudo e a
essa hora da noite porque cheguei da casa de Marco agora, onde comemoramos
minha colocação de terceiro lugar no Torneio de Montaria para iniciantes do
Ginásio Esportivo. Mens sana in corpore
sano.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Minha filosofia da composição
(a Edgar
Allan Poe)
Talvez
um dos maiores mistérios da humanidade seja aquele referente à origem da
inspiração humana para produzir arte. Não sou neurologista e apenas aspiro
arrogantemente a psicólogo, o que acaba por não me permitir os pitacos no que
tange à matéria psíquica alheia, em especial sobre quais processos levam o
cérebro de um estado A, que não é levado a produzir arte, ao estado B, de
inspiração (outrora chamada “entusiasmo”, ou seja, “com deus dentro de si”). A
única matéria mental à qual possuo acesso não é outra senão a minha, e, mesmo a
essa, o acesso é parcial e incompleto. Sobre a mudança de estados, A para B, no
que respeita à minha psique, tenho algo a falar: há determinadas situações,
determinados sentimentos e determinadas brincadeiras (especialmente as
brincadeiras com a linguagem) que fortemente convencem às canetas de que
pertencem à minha mão e os cadernos, de que lhes agrada mais a tinta que a
brancura. Diante desse convencimento, assim como Valery, não produzo música,
porque não me compete, mas produzo palavras, sintagmas, períodos, textos...
Sei, com bastante segurança, que dentre as faíscas que dão ignição ao meu
escrever estão as injustiças, as desigualdades, a modernidade e (acho que
principalmente) o sofrimento humano, matéria que me apetece como o faz um
câncer ao oncologista. De minha parte, no que tange ao impulso inicial, à
espoleta do artista, acho que disse tudo.
Contudo,
não escrevo aqui para isso. Ainda na linha do parágrafo anterior: escrevo
inspirado por “A filosofia da composição”, de Edgar Allan Poe. Pretendo aqui
não imitar o mestre, posto que seria uma luta perdida já de início, mas
aproximar a minha prosa simplista à genialidade de Poe. No meu contexto, vou
explanar meus processos de engenharia da prosa fictícia do meu conto “Outdoor”,
menos por sua fama (por certo que não sou famoso) do que por sua progenitura.
Alego, assim como o mestre, que não há tanta inspiração quanto há transpiração
no meu texto; é antes um engenho projetado e construído do que um discurso por
invocação das musas. Detenho-me mais longamente nisso: tenho pés firmemente
apoiados num materialismo ímpar, de modo que não acredito em forças etéreas que
possam vira manipular – nem para o bem e nem para o mal – a mente humana. Creio
fortemente no funcionamento do ser humano como máquina, com seus fluídos
próprios e seu maravilhosamente complexo sistema computacional Nesse meu olhar
sobre a humanidade, tem lugar uma apaixonada defesa das potencialidades
humanas, capazes, a meu ver, de produzirem as mais belas obras de arte sem
nenhuma inspiração divina. Confio, sim e apesar de tudo, no ser humano.
Dito
isso, eu exponho meu processo criativo. A matéria, como eu mesmo já comentei,
que mais me toca é a do sofrimento humano. Não é por acaso que é o elemento de
desfecho do conto. Acentuando esse meu algoz, está algo que, creio eu, é
característica própria da sociedade capitalista/consumista/individualista: o
descaso de um ser humano para com o outro; no caso, para com o sofrimento do
outro. Além disso, na minha condição de estudioso das Letras, toda mensagem
criada merece ser lida, pois é expressão humana de algum tipo. A cidade de T.
discorda, como visto. Por isso a combinação das três características: uma
mensagem não lida, cuja não leitura ratifica o desprezo das pessoas pelo
sofrimento de uma delas. Poucas coisas haveriam de me dar tanta aflição quanto
essa monstruosidade. Encontrado o elemento significativo-simbólico central do
texto, pus-me a delinear as suas periferias.
Para
tal, detenho-me novamente em outro aspecto contextual: faz alguns anos já que
há na minha cidade, São Paulo, uma lei, chamada “Lei Cidade Limpa”, que
regulamentou as formas de publicidade visual, eliminando da vista dos cidadãos
os outdoors que poluíam imensamente a beleza local. Supus a mesma situação em
T., com uma desculpa que me pareceu mais coerente do ponto de vista racional.
Nova detenção: sou, ou pelo menos considero-me, uma pessoa bastante racional; a
razão, contudo, encontra seu limite, a meu ver, exatamente numa emoção humana:
o sofrimento. Basicamente minha única ressalva ao uso da razão é o sofrimento
humano. Sob minha perspectiva, portanto, o zelo pela racionalidade como
superior à emoção (ou, como gostariam os gregos, “λόγος” como superior ao
“πάθος”) seria um objetivo nobre de uma cidade, sustentado até o final pelas
políticas públicas. Contraposta a isso, a Universidade expunha, no conto, um
dos pensamentos que considero mais perniciosos, mas talvez mais úteis quando se
trata de erradicar o sofrimento[1]: a
exaltação dos sentimentos confortáveis, como a alegria e a felicidade. Quis,
com essa oposição entre a intenção da Cidade e a da Universidade, criar uma
falsa dicotomia entre razão e sentimento, entre objetividade e subjetividade,
entre verdade e publicidade. Deixei propositalmente que os sentimentos tristes
fossem excluídos de ambas as posições, para aparecerem ao final como clímax do
conto.
O
modo de narrar a história, ainda mais do que a oposição descrita no parágrafo
anterior, foi friamente arquitetado, mas para explicá-lo antes tenho de
discorrer sobre uma temática do conto, que sustenta todas as discussões sobre a
legitimidade do outdoor. A temática à qual me refiro é a das instituições. Como
pode ser observado, as ações humanas no conto só se passam no âmbito das
instituições formais (a associação do bairro, a Subprefeitura, a Prefeitura, a
Universidade etc.), o que denuncia minha inclinação ao desgosto por elas. A meu
ver, o homem é mais pleno para exercer sua existência quando está livre das
instituições inúteis que o cercam. No conto, é possível cogitar que as pessoas
pudessem ter salvado o José L. do suicídio, se não tivessem entregado todo seu
poder de ação às instituições às quais pertenciam ou se reportavam. A ação
“humano a humano” é, a meu ver, muito mais legítima forma de interação do que
aquela que se subordina às ficções institucionais. Como essa temática tinha que
ser apresentada como natural e as instituições tinham que ser vistas pelo
leitor como naturais até o momento do desfecho, pensei inicialmente em utilizar
uma voz onisciente, que, por causa de sua impessoalidade, cumpre muito bem com
as necessidades das instituições; minha opinião mudou quando concebi a mudança
de valores que ocorreria no clímax da história. Essa mudança não poderia
acontecer com um narrador impessoal, afastado das emoções humanas; teria que
acontecer com uma personagem, narrando a história de acordo com sua perspectiva
dos fatos. Como minha ênfase ainda estava na influência que têm as instituições
sobre as pessoas, tratei logo de amarrar minha personagem-narrador a tantas
instituições quanto pude sem que eu denunciasse minhas intenções. Pude, assim,
criar uma personagem que estava indiferentemente colocada dentro de algumas
instituições que a sufocavam sem que ela percebesse. Ela só o faz quando se
depara com as medidas últimas das posições institucionais: o confronto
violento. Quis, de certa forma, alertar para os perigos que enxergo no depósito
total de confiança que as pessoas costumam fazer em relação às instituições e
às visões ideológicas destas.
Como
elementos ainda presentes, mas secundários, está elencados alguns aspectos. A
explicitação do tempo que as instituições levam para debater o caso do outdoor
é minha crítica ao excesso de burocracia e, obviamente, de institucionalização
da sociedade à qual pertenço. Outro: a ideia de alguém que se suicida após ter
um pedido de ajuda negado é constituinte notável das minhas memórias da minha
época de depressão; acho fortemente que todos os humanos compartilham de uma
certa responsabilidade em relação aos outros seres humanos, justamente por
compartilharem a humanidade como característica de si mesmos. Por isso, a falta
de atenção da cidade pelo sofrimento de José L. levou às consequências extremas.
Outro: a referência da qual tomei emprestado o nome é de José L. é o protagonista
de “O Processo “, de Franz Kafka, que, assim como a minha personagem, possui
uma versão do nome “José” e a inicial do sobrenome do seu autor. Ainda em
referência a Kafka está a temática das instituições: em “O Processo”, o
protagonista também encontra-se subordinado caoticamente a instituições
confusas e que dominam os acontecimentos em torno dele.
Numa
retrospectiva, então, sumarizando os pontos que tentei colocar no conto (para
alegria dos meus amigos que não se contentaram com a minha postura de “cada um
interpreta o que quiser”) temos um desprezo pela subordinação humana às
instituições, um aviso aos males do individualismo moderno, um apelo para que
olhemos mais para os sentimentos alheios e um mórbido retrato do que teria
acontecido à minha pessoa se eu não tivesse recebido a ajuda dos meus amigos.
[1]
Sim, estou ciente do paradoxo de querer e não querer o sofrimento ao mesmo
tempo. Prego, talvez utopicamente, o alcance da felicidade através da racionalidade.
Se a felicidade irracional for a tese e o sofrimento racional, a antítese, eu
espero que a síntese seja a felicidade racional.
Tem mais ou menos a ver com
Baseado em alguma coisa,
Filosofia,
Prosa,
Reflexão
Ensaio sobre a Estética da Barbárie
De certa forma, sinto-me impelido a
escrever algo sobre Estética, em especial após ter tido contato com alguns
pensamentos de Theodor Adorno. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, houve esse
apelo de alguns setores da crítica literária (e artística, de uma forma mais
abrangente) para a tematização do extermínio propiciado pelo III Reich, sob o
comando do famigerado “Führer”, Adolf Hitler. Judeu que era, Adorno era um dos
que julgava de grande necessidade a abordagem do Holocausto (ou “Shoah”/“השואה” em iídiche, como preferem os
judeus) nas variadas formas artísticas, em especial na literatura. Chegou a
afirmar que qualquer poema alemão “após Auschwitz” seria um ato de barbárie[1].
Começou com isso o problema da oposição em retratar ou não a barbárie.
A instituição do que é “Barbárie” já
é em si problemática. Podemos observar claramente que o extermínio judeu na
Alemanha nos anos de 1930/40 pouco difere qualitativamente dos cometidos por
espanhóis e portugueses contra os habitantes nativos da América; igualmente em
relação às Caças às Bruxas e da Inquisição, perpetradas pela Igreja Católica; o
mesmo se dá sobre as intervenções estadunidenses e israelenses no Oriente Médio
após 1967. Por que então apenas em relação ao primeiro fato faz-se a
problematização da “Estética do Mal”? O argumento, a meu ver, mais propagado é
o da desumanização do povo judeu durante a “solução final” nazista. O mesmo não
ocorreu nas demais situações? A proximidade dos afetados com o ocorrido, cronologicamente
falando, também é argumento. Mas também eu, que tenho um oitavo de sangue
sírio, não tenho direito ao resguardo internacional pelo sofrimento do meu
povo? Quais são os critérios para estabelecermos os limites do que é e do que
não é “Barbárie”?
Na minha opinião, um ponto em que
devemos nos concentrar nessa discussão é o do anacronismo. Quando analisamos um
fato, ele já é passado, uma vez que a perfeita concomitância entre ação e discursivização
dessa é claramente um limite da linguagem humana. Assim sendo, toda análise vem
a ser, sob essa ótica, um anacronismo. Certo julgamento, de arrogância ou
prepotência, pode recair sobre minha cabeça agora, mas arrisco: acho que há,
num sentido não-positivista da questão, uma certa evolução em alguns aspectos da
cultura dos povos[2].
Que houve certa involução, não nego, mas houve aspectos em que tivemos
crescimento e melhorias na qualidade de vida dos humanos. Coloco-me em
consonância com o sociólogo Amartya Sem, que afirma que uma sociedade tem tanto
progresso quanto for a liberdade humana em seu interior. Particularmente, acho
que vivo no momento em que mais há liberdade humana, pelo menos se fizermos uma
retrospectiva dos últimos mil anos. Assumo que não há um ideal universal de
como devem viver as pessoas; acho, porém, que temos uma essência que busca pela
liberdade, um polo da natureza dentro da consciência de casa um, o que me
permite, com certas ressalvas, elencar a liberdade como uma das necessidades
humanas básicas e, portanto, a contemporaneidade como uma das épocas mais
desenvolvidas nesse quesito. Temo ser dogmático e alienado, mas acho que, na
análise do que é ou não é “Barbárie”, podemos sim utilizar alguns valores
contemporâneos, sempre com parcimônia. O problema do anacronismo não
desaparece, obviamente, mas pelo menos dentro de um mesmo Zeitgeist, teremos os mesmos valores para embasar nossos
julgamentos históricos. Mas por que, voltando à questão judaica, dentro da
análise embasada nos mesmos valores (de respeito à vida e de tolerância) o caso
judeu difere dos casos ameríndio e árabe?
A “Barbárie” está nos olhos do
contexto, como podemos verificar através do dado temporal. Mas o que haveria de
explicar a condenação e subsequente problematização do extermínio judeu em
oposição a outros é uma questão de poder. Um clichê da historiografia (em
especial aquela calcada em uma herança positivista) é que “a história é escrita
pelos vencedores”. No caso, parece-me que o clichê se confirma. Não houve uma
elite internacional vinculada aos índios que pusesse seu extermínio como
“barbárie”, a ponto de haver o questionamento referente à necessidade e à
possibilidade de retratá-lo na arte; da mesma forma, as forças de resistência
árabes são tidas como terroristas e os judeus e estadunidenses, ainda do lado
das elites, como heróis da democracia no Oriente Médio. A “Barbárie” não é,
portanto, uma violação dos valores humanos básicos; é antes, uma violação dos
valores humanos básicos quando direcionada EXCLUSIVAMENTE aos donos do poder, à
elite.
A “Estética da Barbárie”, nesse
sentido, é mais do que a representação de violações aos humanos. Constitui-se
como posição ideológica, colocação no jogo sócio-político numa disputa de poderes
opostos. É um perigo, pois reafirma a posição superior da elite. Os espanhóis,
vistos sob a ótica do século XVI, estavam civilizando os primitivos e
desalmados nativos da América; sob a nossa ótica, massacrando um povo e
colocando sua cultura na direção da extinção. Parcial, tendenciosa e indisposta
a ver os dois lados do processo histórico (e sua dialética inerente e
incontestável, porque é parte do passado), a “Estética da Barbárie”
institucionaliza a visão historiográfica positivista na matéria que, a meu ver,
deveria ser a mais livre de influências estranguladoras, que é a Arte. Está
longe de mim o desejo de não representar as violações à humanidade: acho que é
constituinte próprio do ser humano a dialética entre felicidade e sofrimento,
que produz arte dos interstícios entre esses dois polos. A “Estética da
Barbárie” representa apenas metade do sofrimento humano, apenas a metade
vencedora, e exatamente nesse ponto é perniciosa. Exemplifico: tal Estética, no
contexto médio-oriental, preza por descrever, representar e apresentar o quanto
sofrem os israelenses por causa dos ataques de seus vizinhos palestinos; não dá
conta, entretanto, do fato de que os israelenses possuem Forças Armadas
extremamente bem treinadas ou que sua nação é essencialmente beligerante (há
alistamento obrigatório inclusive para as mulheres), em oposição à resistência
palestina, desarticulada justamente porque há uma oposição na ONU, da parte dos
EUA e de Israel, à criação de um Estado Palestino. A cruel “Estética da
Barbárie” exalta os sofredores que vencem, independentemente de estarem agindo
corretamente ou não. Aos que perdem, nem uma vírgula na história; talvez sejam
lembrados por terem sido os vilões subjugados pelos mocinhos heróicos.
Dessa maneira, a “Estética da
Barbárie” encaixa-se muito bem na cultura de bases judaico-cristãs, com a
exaltação do herói (ou seja, do vencedor) que passa por privações para alcançar
seu objetivo. Esse sacrifício aumenta o merecimento do herói e o coloca num
posto de elevação espiritual. O aspecto aí apontado baseia-se também noutra
questão: o merecimento leva ao sucesso, doutrina baseada, suponho eu, nas
promessas divinas para o post mortem.
Esse heroísmo judaico-cristão dos sacrifícios justifica em boa medida a
“Estética da Barbárie”, baseando-a na ideia de que se há um vencedor, esse só
pode estar do lado correto, do lado do bem, uma vez que Deus não beneficiaria
um pecador, alguém agindo a favor das forças malignas. Na Queda do Homem vemos
que o pecador é condenado; no Êxodo, que o crente é recompensado. Não podemos
escapar desse destino histórico-sócio-ideológico sem antes nos propormos a
quebrar nossos laços com essa tradição, em nome do bem-estar humano. Sem esse
rompimento, estaremos fadados a repetirmos as análises históricas positivistas,
as injustiças das elites, a exaltação do opressor e os lugares-comuns análogos
na história do ser humano.
Apesar disso, acho que há como
escapar e reverter essa situação. Os processos históricos não devem ser vistos
no após e nem no antes; devem ser vistos no durante. A verdadeira “Barbárie”
não existe. Existe, sim, a luta constante entre opressor e oprimido e essa deve
ser contada, mas verificada na presentificação das ações: em 1940, na Alemanha,
o III Reich era o opressor e a comunidade judaica (e outros grupos sociais), o
oprimido; em 2012, no Oriente Médio, a comunidade judaica é o opressor e a
comunidade palestina, o oprimido. A história da humanidade é a história da
relação opressor-oprimido. O opressor é o sujeito histórico a ser condenado,
independentemente de vencer ou não na luta histórica. Inauguro, talvez, a
Estética da Anti-Opressão: não quero a exaltação da condição do oprimido, mas
sim o encorajamento da resistência, das insurgências, dos levantes populares. A
Estética da Anti-Opressão teria um único objetivo, o de incentivar a luta
contra as forças subordinadoras, contra o subjugo de forças sobre pessoas,
contra a imposição de valores. Exaltemos não a inversão do jogo de poderes,
porque a comunidade judaica passou de oprimida a opressora, mas exaltemos a
anulação das forças de opressão, a neutralização dos jogos de poder humanos. Só
assim, talvez, a Estética elevar-se-á.
[1] „Nach Auschwitz ein Gedicht zu
schreiben, ist barbarisch“. ADORNO, Theodor. Kulturkritik und Gesellschaft.
[2] Reforço que não tenho
inspirações positivistas, nem compromisso com as teorias de que “o homem mais
civilizado é o mais evoluído”. Acho apenas que algumas coisas melhoraram no
decorrer da história humana e a isso chamo “evolução”.
Tem mais ou menos a ver com
Baseado em alguma coisa,
Filosofia,
Prosa
Ensaio sobre a Loucura
Sei que um dia enlouqueço
por mais que finja a minha aparência
um dia enlouqueço
por mais que finja a minha aparência
um dia enlouqueço
e passo a viver de verdade
Enlouqueço e fujo-me
fujo das minhas ciências
não palavra habilidade segurar a primeira pessoa enunciador
inclusive não sintaxe
um dia enlouqueço
e passo a viver de verdade
Enlouqueço e vivo todo mundo
- porque enlouquecer e matar a todos
não faz bem pra ninguém -
um dia enlouqueço
e passo a viver de verdade
Enlouqueço e saio sem roupas pela rua
a encontrar outros prisioneiros e dizê-los
~enlouqueci, meus caros, enlouquecei vós também~
um dia enlouqueço
e passo a viver de verdade
Enlouqueço e esqueço a poesia
ela só é meu pezinho na loucura
quando estiver na loucura total
pra quê pezinho, minha gente?
um dia enlouqueço
e passo a viver de verdade
Um dia enlouqueço
e vejo que eu vivo de verdade
Enlouqueço e fujo-me
fujo das minhas ciências
não palavra habilidade segurar a primeira pessoa enunciador
inclusive não sintaxe
um dia enlouqueço
e passo a viver de verdade
Enlouqueço e vivo todo mundo
- porque enlouquecer e matar a todos
não faz bem pra ninguém -
um dia enlouqueço
e passo a viver de verdade
Enlouqueço e saio sem roupas pela rua
a encontrar outros prisioneiros e dizê-los
~enlouqueci, meus caros, enlouquecei vós também~
um dia enlouqueço
e passo a viver de verdade
Enlouqueço e esqueço a poesia
ela só é meu pezinho na loucura
quando estiver na loucura total
pra quê pezinho, minha gente?
um dia enlouqueço
e passo a viver de verdade
Um dia enlouqueço
e vejo que eu vivo de verdade
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