quarta-feira, 25 de julho de 2012

Estou em casa

   e os prédios erguem-se imponentes com seus tijolos aparentes, sua idade e sua beleza, sua imponência machucada, seu misto de manicômio e fábrica de automóveis.
   e os velhos viadutos, os velhos botecos, com velhas luzes de neon, já desgastada, sopra vida de seus balcões velhos e engordurados.
   e minha boa e velha sobriedade não me impede de viver - talvez pela primeira vez - e eu posso ser e estar e viver e cantar e escrever

   até que enfim eu pude escrever. ufa.

Sobre ser amigo sem se conhecer

centro
antro não tão lento
"é o lugar do momento!"
eu tento, tento, mas
não me contento
hei de, então, atento,
centrar-me mais
farei do âmago da coisa
do sumo da coisa
da polpa da coisa
do centro da coisa
meu alimento

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Augusta

todos os mais estranhos estavam por ali
as bruxas, os elfos, os duendes
estavam ali
com sua magia rara, sua aparência disforme
(seus séculos e séculos e mais séculos de lendas)
estavam ali
e por um momento estão ali
e em seguida estiveram ali
e fogem para suas tocas, todos pelo mesmo buraco
e vão, numa alegre comunhão de quem não é aceito
e, exatamente por isso, aceita
e vão os clowns, os malabaristas, o coro grego
as putas, os homeless, os doentes
e até mesmo os ricos artistas curitibanos que hão de depositar-se na viela mais avenida mais bulevár mais rica da mais pura boemia
todos eles vão se deitar
porque magia não acontece de dia
magia aconteceu de noite

e acontecerá em outras noites

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Mano Velho

ei, tempo, meu amigo
fala
falta um tanto ainda, né
falta
mas deixa eu te falar...
ah, não, gabriel, eu não vou correr não
ah, mas era sobre isso mesmo que eu ia te falar: corre mais devagar um pouco. pode ser?

Sabor

era o sabor dos seus beijos
primeiro manteiga de cacau
depois outras coisas
chocolate meio-a-meio
macarrão congelado a bolonhesa
sorvete de frutas com confetes
comida caseira (slow food)
e depois mais nada
deixou gostinho de quero mais
gostinho de quero pra sempre.

domingo, 6 de maio de 2012

Voltou

Hoje tá foda.
Eu te amo.
Me desculpe.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

1 + 1 = 2

Uma piscada na estrada. Olhos de caçador fechados por um segundo. E o meu algoz à minha frente. Pneus gritando no asfalto frio do outono. Porta, teto, porta, rodas, porta, teto, porta, rodas no chão. E tudo volta.
Eu queria era brincar, ser criança. Mas não. Devo caçar. Coisa de homem. E aquela garota da lanchonete, tão bonita. Era difícil, eu sei, mamãe ajudava muito antigamente. Mas, girando, basta uma matemática bem simples: coisas somadas na nossa vida nos dão o resultado no final. E às vezes a soma nos impressiona. Somando-se o controle do meu pai e a passividade da minha mãe, o que temos?
Temos uma matemática quase pecaminosa, que nos engana com suas trocas de sinal inesperadas, suas potências absurdas e suas divisões entre diferentes momentos. Mas a verdade, não, a verdade não pode ser dividida.
E o meu algoz? Eu somado a ele temos meu pai decepcionado. Aquilo eu não faria. Até pensei em fazer pra agradar a garota. Mas não sou eu.
Mas e se eu estiver errado?
E se minha raiva for eu tentando voltar pra onde sempre estive?
E se eu acreditar que tudo isso é maravilhoso?
Talvez a matemática não seja tão simples assim.