domingo, 19 de junho de 2011

Garoto-de-Aço

Era uma vez um garoto. Nasceu no final do outono, quase inverno. Uma tarde chuvosa, chorosa. Foi para casa enrolado em cobertas. Sua infância não houve. Por causa de sua saúde, sentou em sua cama e leu. Somente leu. E como um sapato novo, não amaciou seu couro nas bolinhas de gude ou nas peladas da rua. Tornou-se, assim, aço.
Era o próprio homem-de-aço. Toda e qualquer crítica ricocheteava em sua brilhante armadura, da qual se orgulhava muito. E com o tempo foi reforçando sua armadura, tornando-se um robô. Até que um dia
conheceu uma pessoa muito interessante. O garoto-robô-de-aço quis pegar a pessoa e exibi-la como um troféu para os outros. "Eu consigo. Eu amo. Sou humano.". Só não reparava numa coisa: sua pessoa-troféu não tinha armadura-de-aço e estava recebendo todos os machucados dos odiadores do robô-de-aço.
A pessoa-troféu encheu-se. Desceu dos braços do robô-estátua-de-aço e foi-se embora, deixando-o sozinho. Parado. Não havia Dorothy que pudesse achar um coração atrás daquela armadura-de-aço. E a armadura finalmente pesou sobre os ombros do garoto dentro dela, que chorou, chorou e chorou. O garoto reparou que as armas de sua armadura machucavam as pessoas à sua volta.
E, lá no fundo, bateu seu coração a primeira batida. Uma batida verdadeira, e não aquela que ele havia programado para bater quando estava com a pessoa-troféu. A batida verdadeira ainda era pela pessoa-troféu, que não era mais troféu e era, para ele, totalmente pessoa. E estátua-de-aço, parada em seu pedestal de admiração, começou a despir sua armadura.

domingo, 22 de maio de 2011

Sapato Novo

"-E aí, tudo bem?

-Bem, como vai você?
(Levo assim, calado, de lado do que sonhei um dia como se a alegria recolhesse a mão pra não me alcançar. Poderia até pensar que foi tudo sonho. Ponho meu sapato novo e vou passear, sozinho, como der, eu vou até a beira.)

-Tem certeza? Você tá com uma carinha...

-Besteira qualquer, nem choro mais. Só levo a saudade(, morena,) e é tudo o que vale a pena."

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Inerente

Nada mais me é inerente
repudio, a partir, de hoje a inerência
sou o que serei e talvez o que já fui,
constante mudança
(por favor)
Bem-vindo a uma nova era, eu,
uma nova era: EU

Ajuda

Vamos a um texto mais em prosa que os meus habituais. A velocidade é a raiz quadrada da razão entre a tensão na corda e a densidade linear dela. É um fato como muitos outros. Como o fato de que eu preciso de ajuda para resolver meus problemas. Ninguém é tão auto-suficiente.
Tenho que tomar cuidado com meus pensamentos e sentimentos. Eles me consomem e controlam de tal forma que eu posso querer até me matar. As minhas mais recentes descobertas apontam para um grande potencial em resolver meus problemas, mas não exclui a ajuda dos outros à minha volta. Por outros: meus amigos, meus amores, minha família, meus professores, minha psicóloga.
Meus diários de consultas eu vou publicar aqui. Espero que você, meu leitor (tenho leitores?), não se importe. Ou que se importe e me ajude, se puder. Obrigado.

domingo, 15 de maio de 2011

E agora?

"vou me perdendo
buscando em outros braços seus abraços
perdido no vazio d'outros passos
do abismo em que você se retirou
e me atirou e me deixou aqui sozinho"

Mate-a rápido

Sabe aquela flor, pequeno príncipe?
Aquela que você cultivou com tanto carinho?
mate-a
agora

antes que seja tarde
demais

"mas eu gosto tanto dela!"

mate-a
rápido
já passou do tarde-demais

sábado, 14 de maio de 2011

Penas e Tinta

E escrevo para gritar,
libertar minha alma,
dar asas ao meu coração,
dar asas ao meu ideal.
Não há ração em meu bornal;
há um conjunto de penas
e tinta no meu cantil.
Hei de escrever até a morte!
Ás favas com os seres humanos!
Seja livro, homem, e será eterno
em suas ideias.
Escreva para todos, seja você-em-si-em-palavras sempre
Não se esconda de mim, poeta,
pegue seu penas-e-tinta e parta para a guerra.
Ideias, escrevo e grito, são à prova de balas.