sábado, 18 de setembro de 2010

Ei, Shakespeare!

- Ei, Shakespeare! Você tá aí?
- Tô! Por quê?
- Queria falar com você.
- Falar o que?
- Sobre suas peças.
- Que tem minhas peças?
- Como você as faz?
- Não sei. Só faço.
- Como?
- Já se olhou no espelho, e viu dentro dos seus olhos castanhos?
- Já.
- Já achou que tinha mais de você no fundo da sua retina?
- Já.
- Minhas peças são o fundo dos meus olhos.
- Fundo dos olhos? Mas... e se eu usar óculos escuros? Shakespeare? Cadê você, Shakespeare? Droga, minha cabeça às vezes me fala cada coisa confusa. Né, Machado?!

Pimenta na Mente dos Outros é Refresco

Vem como quem não quer nada.
Poucos toques, muita graça.
Cara de criança, jeito de criança.
Pensa como adulto.
Sente como adulto.
E, como criança, despede-se de ser adulto.
Joga para o alto sua maturidade.
Tem oportunidade de ser mais criança.
De ser criança.
Falar como criança.
Mas, às vezes, seu olhar juvenil se perde,
desfoca-se num franzir de testa maduro.
Sem alegria nem felicidade, com introspecção.
É maduro, não é?
Não, não sou!
É sim.
Não sou!
Sou criança!

Pão Bom

Estava eu tomando café-da-manhã outro dia. O pão estava duro, borrachudo. Meu amigo comentou: "que falta me faz um pão bom." É verdade. Um pão bom faz muita falta. O pão bom que falta à maioria das pessoas. Um pão bom.
Um pão bom faz falta. Faz falta poder cortá-lo pra passar uma manteiga boa. Colocar um presunto bom dentro. Tomar um bom café-da-manhã. Ter uma boa manhã. Ter um almoço bom, uma tarde boa e uma noite boa.
Que falta me faz uma vida boa.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Muito Prazer

Encantada em conhecê-lo.
Você já me conhece, é claro.
Só não sabe que sou quando sou eu.
Não sabe dizer que você me sente.
Sabe aquelas vezes que você foi esquecido,
que foi excluído,
desprezado,
injustiçado,
mal-amado,
não-amado.

Sabe todo aquele seu esforço, quando não te rende nada.
Aquele seu sentimento, que não é correspondido.
Aquelas suas palavras que pairam no ar e te sufocam.
Aquela rosa tão linda que você ganhou e te espetou o dedo.
Aquela eterna enxaqueca da vida.
Aquele quero-ir-embora-daqui.

Tudo isso, debaixo do sol ou encoberto pelo eclipse,
quando se parece ter tudo ou quando se finge não ter nada,
quando estar por cima da carniça vira ser a própria carniça,
quando o brilho nos olhos é reflexo da lâmina da faca,
quando a beira do penhasco é tão aconchegante final pra tudo de ruim.

Sou eu.
Todas essas coisas sou eu.
Muito prazer, a Dor.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ninguém Escreve ao Coronel

Às vezes se sente perdido
Debaixo da paletó azul,
do quepe de aviador
e das insígnias prateadas,
ninguém lhe escreve

Ninguém lhe escreve por causa de quem?
Não por causa dos outros,
que ainda se escrevem uns aos outros
Por culpa dele

Foi culpa dele querer a vitória.
Foi culpa de todos a sua volta.
Foi culpa dele ter que conseguir sucesso
às custas da distância e da guerra.

Quem sabe ele tivesse sido um bom jornalista,
professor,
advogado,
poeta.
Mas não foi
Foi tão-somente Coronel
O melhor Coronel, mas somente Coronel

Foi bom Coronel desde que era Cadete
Altivo,
garboso,
elegante,
solitário
Coronel.

E o seu êxito ali o fez esquecer-se daqui.
Daqui onde era amado sem suas platinas.
Daqui onde era querido sem estratégia.
Daqui onde era só ele-mesmo.

O esquecimento dele caiu no esquecimento;
As pessoas continuaram se vendo,
Os carros continuaram passando,
As garotas continuaram beijando os garotos.
mas e o Coronel?
Ninguém escreve ao Coronel.

Conheço Seu Jogo, José

Te vi jogando bola hoje, José
Seu jogo é bom, José
Dá futuro
Melhor!, dá presente.

Seu jogo é rápido, José
Suas pernas são mais rápidas do que compridas
Enganam mais do que fazem
Fingem mais do que são

Seu jogo, José, é forte
Depende do corpo, e pouco da alma
Depende dos olhos, cabelo, roupas e de parecer melhor que os outros
E se molda, como massa de modelar, às tendências
Você nunca fica por fora, José

Seu jogo é tenso, José
Você só joga se for pra ganhar
Só ganha
Sempre ganha
Ganha não de si mesmo, mas dos outros
Ninguém ganha de você, né, José?!

E o melhor (ou pior) de tudo, José
Seu jogo funciona!
Funciona mais que meu xadrez e minhas palavras outonais
Funciona mais que o humor e bem mais que a inteligência
Seu jogo de egos (no qual o seu é sempre mais forte, mais bonito, mais bem penteado e bem vestido) ganha, José
Seu jogo funciona!, José

E o meu, não.

Vi a vida passar por mim hoje

Eu vi a vida passar por mim hoje
Não amargurada
Não triste
Não a minha vida
a Vida

A vida veio de longe
bengala na mão, cabelos brancos, rugas profundas
vinha vestindo uma calça marrom, uma camisa velha e um casaquinho
segurava uma sacola de supermercado contendo as mil-maravilhas ou os sete-pecados, não sei...
E, enquanto eu via a vida vindo, pensei:
"Tenho que falar com a vida! Perguntar-lhe o que a por vir, o que ela já viu..."
Mas não tive coragem

Não tive coragem porque a vida não está aqui pra que a gente pergunte as coisas para ela
A vida não está aqui pra que a gente pergunte
"Do que é feita sua bengala?
Quando você comprou essa roupa?
O que tem nessa sacola?
Você já foi feliz, Dona Vida?"
A vida está aqui pra que a gente viva ela
Somente VIVA

E o pior de tudo:
enquanto pensava o que descrevi,
a vida passou por mim
hoje
ontem
e amanhã.